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Obra 3: Arca de Noé, de Elifas Andreato, 1980. Técnica: Recortes gráficos e papel.

Obra 3 · Parede 1

Arca de Noé

1980

Áudio-descrição
Autor
Elifas Andreato
Ano
1980
Técnica
Recortes gráficos e papel
Dimensão do original
30cm x 30cm

Descrição

Capa quadrada de disco infantil, em estilo recorte e colagem, com cores vivas e formas chapadas. O fundo é branco no alto e amarelo embaixo, como céu e chão. No alto, em letras grandes e coloridas, lê-se "Vinícius de Moraes", "Arca de Noé" e um grande número dois, vermelho. Por todo o céu caem traços diagonais coloridos, como uma chuva alegre. No centro da imagem, uma arca laranja e marrom repousa sobre um morro de terra. Atrás dela ergue-se uma tenda de circo, com cobertura listrada de vermelho, azul, verde e amarelo. Sobre o casco da arca, um tigre caminha. À esquerda, no chão amarelo, há uma girafa alta, uma bola colorida e uma foca preta sentada, de bigodes. Lá em cima, à esquerda, uma arara colorida; à direita do número dois, um macaco trepado numa corda. À direita, embaixo, um elefante cinza e uma árvore verde com um tucano pousado no topo. No canto inferior direito, um pequeno sapo verde. No centro, na frente da arca, um palhaço de braços abertos e mãos brancas erguidas. Veste casaca verde e calça listrada de vermelho e amarelo, com chapéu-coco preto. Tem nariz vermelho e um "x" sobre um dos olhos. Ao lado dele, um ganso branco. Um arco-íris atravessa a cena, subindo do canto inferior esquerdo em direção à arca. No alto, à esquerda, em letras azuis: "Cole aqui os novos bichinhos da sua arca". Embaixo, à esquerda, em vermelho: "Vinícius para crianças". Ilustração de Elifas Andreato, para o disco Arca de Noé, volume dois, de 1981. Análise interpretativa A primeira ousadia da imagem é o que ela recusa representar. O mito da Arca de Noé é, na origem, uma narrativa de catástrofe: dilúvio, extinção, juízo, medo. Andreato faz o oposto absoluto. A chuva vira confete colorido; o naufrágio iminente vira circo; o castigo divino vira festa. É uma inversão semântica radical, coerente com o gesto de Vinícius: pegar um arquétipo grave do imaginário ocidental e devolvê-lo às crianças como espaço de alegria. A arca aqui não foge da morte — ela celebra a vida em sua diversidade. Há uma metáfora visual potente no arco-íris que sobe da terra em direção à arca. No texto bíblico, o arco-íris é o sinal da aliança, da promessa de que o dilúvio acabou. Colocá-lo durante a chuva (e não depois) é dizer, simbolicamente, que a esperança e a ameaça coexistem — leitura que dialoga com o Brasil do início dos anos 1980, ainda chuvoso de autoritarismo, mas já vislumbrando cores no horizonte. Outra leitura possível, mais simples: o arco-íris é apenas o vocabulário cromático natural da infância, sem carga política. A presença do circo — a tenda listrada, o palhaço de braços abertos no centro exato da composição — desloca o eixo simbólico. Se a arca tradicional é um espaço de salvação por seleção (só entra um casal de cada), o circo é um espaço de acolhimento do excêntrico: o lugar onde o diferente, o desajeitado, o "fora do padrão" é justamente quem está no palco. O palhaço com o "X" no olho — entre o cômico e o melancólico — talvez condense isso: a alegria que carrega uma pequena ferida, o riso que sabe da chuva. Numa leitura sistêmica, ele é o nó da composição: o ponto onde natureza (animais), cultura (circo) e mito (arca) se encontram num corpo humano de braços abertos. Do ponto de vista de forma e conteúdo, o recorte-e-colagem não é escolha estética neutra. É uma técnica democrática e manual — qualquer criança com tesoura e cola pode imitá-la. Ao oferecer a capa para ser completada pela própria criança ("cole aqui os novos bichinhos"), Andreato dissolve a fronteira entre artista e público: a obra é deliberadamente inacabada, um sistema aberto que só se completa na interação. Isso é, em si, uma afirmação política sobre arte e infância: a criança não é receptora passiva, é cocriadora. A arca de cada um fica diferente — a diversidade não está só representada na imagem, ela está programada no objeto. Para um observador contemporâneo, a capa pode ser lida ainda como uma pequena utopia da convivência: tigre, ganso, sapo, elefante, criança e palhaço partilhando o mesmo barco sob a chuva, sem hierarquia nem predação. Num tempo de crise climática e de polarização, a imagem ganha uma camada que seus autores não poderiam prever — a arca como metáfora do planeta compartilhado, e a alegria como forma de resistência ao apocalipse.