Linhas da Vida
Uma linha do tempo da trajetória de Elifas Andreato — do menino lavrador do norte do Paraná ao artista, designer e ativista que marcou a cultura brasileira.
1946
Nasce em Rolândia, no norte do Paraná, em uma família de lavradores. Sua família era pobre e, tentando uma vida melhor, viveram em vários lugares. Ainda criança, ele trabalhou na roça plantando café e milho, e entregando leite.
1958
Muda-se com a família para São Paulo.
1960
Torna-se aprendiz de torneiro mecânico na Fiat Lux. Publica os primeiros desenhos no jornal interno e pinta os painéis que decoravam o salão da fábrica nos bailes de sábado. Foi neste ambiente, aos 18 anos de idade, que ele se alfabetizou em um curso noturno para adultos. Também neste período criou uma arte marcante para a CIPA da fábrica: uma mão vermelha reproduzida em mimeógrafo com a palavra "Basta!", em um gesto primitivo de defesa da vida e segurança no trabalho.
1965
Abandona o emprego na fábrica para dedicar-se à carreira artística. Torna-se assistente de cenografia do programa de Luís Vieira, na TV Record.
1967
É contratado pela Editora Abril. Passa pelas revistas Quatro Rodas, Veja e Realidade. Participa da criação da Placar e da coleção História da Música Popular Brasileira, que o aproxima dos principais artistas de seu tempo. Foi nesse período de efervescência que ele estagiou e conviveu com grandes cabeças da imprensa, como Thomaz Souto Corrêa.
1969
Passa a colaborar com jornais de oposição ao regime militar. Imprime em sua casa, em mimeógrafo, o jornal clandestino Libertação.
1972
Desenha as primeiras capas de disco: A Dança da Solidão, de Paulinho da Viola, e Batuque na Cozinha, de Martinho da Vila. Produz a capa do Livro Negro da Ditadura Militar, dossiê que denunciava os crimes do regime militar. O livro foi lançado de forma clandestina durante o governo do ditador Médici e possuía uma capa fortíssima exibindo um quepe militar sobre um crânio.
1973
Deixa a direção do departamento de arte da Abril Cultural para dedicar-se à imprensa alternativa, de contestação ao regime militar. Dirige os jornais Opinião e Movimento e a revista Argumento, produzindo publicações sob a dura realidade de constante censura e repressão policial.
1974
Inicia a colaboração com o teatro, com cartazes e cenografia para peças como Caminho de Volta, dirigida por Fernando Peixoto, e Muro de Arrimo, com direção de Antonio Abujamra – cujo cenário lhe rendeu o primeiro dos muitos prêmios em teatro. Nesse período também assinou o cartaz da peça "Mortos Sem Sepultura", de Jean-Paul Sartre, cuja arte ilustrando um homem no pau de arara foi apreendida pela polícia.
1975
Assume a criação dos desfiles da escola de samba Camisa Verde e Branco, de São Paulo. Conquista três campeonatos seguidos como carnavalesco. Passa a colaborar para editoras de livros, com a criação de capas e ilustrações para as coleções Nosso Tempo e Autores Brasileiros, da Ática.
1979
Lança, em parceria com o jornalista Tárik de Souza, o livro Rostos e Gostos da Música Popular Brasileira. É também o ano em que produziu telas emblemáticas como o retrato "Clementina" (que ficou inédito ao público por 40 anos) e a arte antológica do álbum "Zumbido", de Paulinho da Viola.
1980
Dirige o espetáculo Zumbido, de Paulinho da Viola. Assina a capa de Ópera do Malandro, de Chico Buarque, considerada a mais cara produção de arte da indústria fonográfica. Realiza a primeira exposição retrospectiva da carreira, que tem início na Funarte (RJ) e passa por cidades como São Paulo, Curitiba, Belém e Belo Horizonte.
1981
Pinta o quadro 25 de Outubro, que denuncia o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. A obra monumental ajudou a desmascarar a farsa montada pelo regime militar de que Vlado havia cometido suicídio nas celas do DOI-CODI.
1982
Em um caso clássico de seu ofício, concebe uma ilustração para a revista Playboy na reportagem "Vandré, símbolo de uma geração ferida". Elifas criou originalmente uma arte com uma impressão digital, mas decidiu substituí-la na última hora por uma cicatriz mal coberta com esparadrapo, pois considerava Vandré a ferida que não cicatrizava em sua geração. A obra original foi resgatada quase 40 anos depois em um bazar por cinco reais.
1983
Escreve a peça musical Casa de Brinquedos, com músicas de Toquinho. A música Estrela de Papel, parceria com Jessé, vence o Grande Prêmio da Canção Ibero-Americana, em Washington, Estados Unidos.
1984
Dirige e cenografa o espetáculo MPB em Roma, que reúne na capital italiana alguns dos principais artistas da nossa música. Cenografa e produz o programa Som Brasil, com apresentação de Lima Duarte, na Globo.
1986
Projeta a Praça Antônio Prado, diante da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), no centro de São Paulo.
1987
Cria o projeto Canção dos Direitos da Criança, que se tornaria disco com Toquinho, especial na Globo, além de peça teatral e livro, em diferentes montagens e edições. Esse icônico projeto transmídia de foco infanto-juvenil continuou vivo décadas depois, encabeçado pela incubadora "Fábula".
1988
Dirige o programa Empório Brasileiro, com apresentação de Rolando Boldrin, no SBT.
1991
Faz a programação visual e coordena, ao lado do maestro Júlio Medaglia, o Festival de Inverno de Campos do Jordão.
1996
Cria a primeira das capas para Zeca Pagodinho: Deixa Clarear. E a 13ª para Paulinho da Viola: Bebadosamba – cujo espetáculo dirigiria.
1997
Concebe e produz as coleções de fascículos e CDs MPB Compositores e História do Samba, lançadas pela Editora Globo.
1998
Cria e produz exposições históricas temáticas, como O Brasil Encantado de Monteiro Lobato, Notícias de Rui Barbosa, JK: de Telegrafista a Presidente e O Samba em Verso e Prosa, que percorrem várias cidades do país.
1999
Lança a revista mensal Almanaque Brasil, distribuída nos voos da TAM, por assinatura e em escolas e bibliotecas públicas. A revista circulou a bordo e como referência do folclore nacional por 15 anos, amparada por uma parceria inicial do artista com o comandante Rolim Amaro.
2008
Minissérie Queridos Amigos, da Globo, utiliza uma retrospectiva de sua obra como vinheta de abertura.
2011
Estreia na TV Cultura e na TV Brasil o programa televisivo Almanaque Brasil, com apresentação de Luciana Mello e Robson Nunes. Pelo conjunto de sua notável contribuição em defesa dos direitos humanos, recebe o Prêmio Especial Vladimir Herzog. No final deste ano (dezembro), formaliza-se juridicamente o Instituto Elifas Andreato, com atuação de seu filho Bento Andreato.
2012
Abre as comemorações do centenário de Vinicius de Moraes com a exposição O Haver: Pinturas e Músicas para Vinicius, ao lado de Chico Buarque, Toquinho, Paulinho da Viola, Zeca Baleiro, Martinho da Vila, entre outros.
2013
Cria e produz o programa infantil O Teco-Teco, no ar na TV Brasil e TV Rá Tim Bum. Projeta a Praça e Memorial Vladimir Herzog, no centro de São Paulo, que foi oficialmente inaugurada em 25 de outubro de 2013 abrigando o Espaço Cultural a Céu Aberto, o qual conta com mosaicos e obras como "Vlado Vitorioso".
2015
Têm início as comemorações de seus 50 anos de carreira com a exposição Elifas Andreato: Contornos da Música Carioca, no Centro de Referência da Música Carioca.
2017
Lança o livro Almanaque Brasil, coletânea que celebra os anos de trabalho editorial, e relança simultaneamente o Almanaque como um veículo e portal independente na internet.
2018
Realiza o "Sarau do Elifas" no Sesc Pompeia e inaugura a exposição "A Arte Negra de Elifas Andreato" no Museu Afro Brasil, focada em seus retratos de figuras fundamentais para a resistência e a cultura negra.
2019
Assume a direção artística do Troféu Raça Negra e a direção do show A Noite Veste Azul com Paulinho da Viola, Velha Guarda da Portela e Criolo. Lança também uma série de programetes audiovisuais para a TV Cultura chamados "Capas do Brasil".
2020
Entrega do aplicativo Almanaque Brasil para uso focado em sala de aula. Ainda no contexto da pandemia, encerra o ano de 2020 doando uma grandiosa tela em tributo a Dom Paulo Evaristo Arns para entronização na PUC-SP, reafirmando seu ativismo junto aos movimentos de base.
2022
Falece na madrugada de 29 de março, aos 76 anos, em decorrência de complicações após um infarto. Mesmo em luto, ocorre o lançamento do livro infantil "Lábaro: O enigma da bandeira brasileira", um projeto póstumo escrito por ele e ilustrado/finalizado por sua filha, Laura Andreato.
